sexta-feira, 24 de junho de 2011

O Silêncio dos Segredos


Era carnaval, na pequena cidade do interior de Minas Gerais.
As ruas, os bares, o clube, as pessoas estavam enfeitadas de serpentinas, purpurina e máscaras. Eu tinha quatorze anos e estava sentada na soleira da porta da minha casa com minha amiga Cláudia. Falávamos das nossas fantasias para o baile daquela noite quando ele dobrou a esquina da rua.
Moreno, alto, forte, dezessete anos, lindo, simpático, com um sorriso branco. Ele vestia uma calça jeans, uma blusa indiana azul, tinha um chapéu de caubói na cabeça, uma mochila nas costas e era carioca, do Rio de Janeiro. Eu quase morri quando vi aquele gato lindo vindo em nossa direção. Balbi , era o nome dele. Ele nos pediu informação de um endereço que eu sabia onde ficava, mas preferi levá-lo lá pra casa dos meus pais que o receberam muito bem. Ele passou o carnaval lá em casa e eu o beijei na última noite de carnaval, pra não causar constrangimento, eu queria ser amiga dele.
Não foi o que aconteceu, quando Balbi retornou ao Rio eu já estava completamente apaixonada e começamos a trocar cartas de amor. Vivemos uma paixão de fotonovelas, mas eu nunca contei esse amor pra ninguém. Nós combinamos selar essa cumplicidade de podermos contar em cartas e fotos a nossa vida um ao outro. Era um pacto de amor.
Guardava suas cartas numa caixa, junto a uma margarida que ele me deu quando saímos pra passear na praça e ele comprou uma pipoca que eu também guardei o saquinho e nunca consegui amassar. Nessa caixa ainda tinha duas fotos nossa na noite de carnaval, um anel de prata com o nome dele, o papel de um chiclete ping-pong que ele me deu depois do beijo daquela noite. Muitos anos depois, já tínhamos nos perdido de vista, sabíamos notícias e mandávamos lembranças, um para o outro através de amigos. Eu soube que ele morreu muito jovem ainda, com vinte e poucos anos. Ele caiu de uma cachoeira numa fazenda próxima a cidade dos meus pais. Abri a caixa de recordações, que ele havia me mandado pelo correio, ela tinha uma foto da praia de Copacabana e estava meio amarelada pelo tempo. Olhei todas as lembranças enquanto minhas lágrimas molhavam os papéis. Naquele momento eu não percebi que o que aquele garoto de olhos de jabuticaba me ensinou e me deixou, foram muito mais do que aquelas lembranças amareladas pelo tempo. Hoje, ao acordar com saudades do Balbi, tive um insight. O que ele me ensinou ta guardado no meu coração e é meu maior tesouro e a maior de todas as magias. Pois foi com ele que eu aprendi aos quatorze anos o silêncio dos segredos.

Denise Portes

...

*Esse texto faz parte do projeto "Dois Olhares" de Denise Portes e Néia Lambert  http://eternosim.blogspot.com/*

6 comentários:

Bloguinho da Zizi disse...

Tantos segredos guardamos no silêncio do nosso coração...
Quantas emoções?

remall disse...

Denise tenho uma história de amor bem parecida com a sua, só o final que é diferente; mas, entendo o que é ter uma caixinha de siencio e segredos, vc não imagina o quanto

'Lara Mello disse...

E o projeto, vai deixar de ser projeto quando? Tenho gostado muito! ^^

Néia Lambert disse...

Denise, os segredos são silenciosos e saber guardá-los é um dom!

Um beijo, com carinho!

Néia Lambert

Nara disse...

Emocionante!!!
Simplesmente fantástico...

Um abraço,
Nara

RosaMaria disse...

Adoro segedos, este gostinho de proibido, da um animo maravilhoso.

Bom findi!
Adorei o avatar

Beijão